GULA

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 Colar com dois pendentes inspirados num bolo sobre um naperon e numa colher.

Quando a fome é gula

Quando uma necessidade passa a ser um excesso, deparamo-nos com um dos eternos dilemas da condição humana.

Se a fome é uma necessidade primordial a ser preenchida, o prazer provocado pelo açúcar é um luxo provavelmente só explicado pelo excesso da gula. Mas não poderá o prazer ser um fim em si mesmo, tão pouco condenável como a beleza de algo que também é útil?
Talvez ser útil não baste.

A joalharia, pela sua capacidade de ser usada, pelas suas funções simbólicas e sociais, estará no limite entre o objecto útil e a inutilidade da arte que serve apenas para ser admirada. A joia é, possivelmente, o açúcar que colocamos sobre a roupa que vestimos para dar-lhe mais sabor, para dotar o útil do luxo da aparente inutilidade da beleza.

Enquanto a joia de prata ganha a forma limpa e final, o lixo acumula-se nas mãos e na gaveta da banca de trabalho em forma de limalha – um pó prateado que lembra areia ou açúcar refinado. Se em vez de ser descartada for recolhida e acumulada num frasco, é possível reaproveitá-la, transformá-la de novo em prata possível de trabalhar, numa espécie de reciclagem circular. Mas porque não assumir a limalha enquanto material integrante da joia? Como se o lixo a que o luxo dá origem se tornasse, ele próprio, protagonista.

A Gula, celebrando o prazer de criar um objecto belo que pode ser usado enquanto transmite uma mensagem, trata a limalha de prata como se fosse açúcar, integrando na mesma peça formas utilitárias reconhecíveis – como é o caso da colher e do naperon em que o bolo de resina e pérolas assenta – e transformando-as em elementos simbólicos que, descontextualizados e fora de escala, exaltam a sua inutilidade prática.

Quando usada, a Gula adverte para os perigos de cedermos ao prazer puro e simples, tornando o instrumento para alcançá-lo inacessível. Porque se a fome é o sintoma de uma necessidade, a gula é, talvez, um prazer tão necessário como a beleza que anseia ser contemplada.


[A palavra gula deriva do latim gula, que significa esófago, garganta, goela. É também a palavra usada para açúcar, em indonésio.]